Um intenso programa de palestras e debates, coordenado pela ANAB Brasil, marcou o ‘Dia da Arquitetura Sustentável’ durante a 2ª FIBOPS – Feira Internacional para Intercâmbio de Boas Práticas Ambientais, no dia 02 de setembro, no Centro de Convenções Frei Caneca, em São Paulo. O tema central - ‘Políticas Públicas, Incentivos e Iniciativas para a Sustentabilidade na Construção Civil’ – mereceu a atenção do público presente às variadas abordagens dos convidados, desde ‘cases’ até projetos de lei, passando por financiamentos públicos à pesquisa de soluções sustentáveis.
‘Case’1: Centro de Cultura Max Feffer David Douek, diretor da OTEC – Otimização Energética para a Construção, empresa que orientou a implantação dos procedimentos necessários à certificação LEED de impacto ambiental no Centro de Cultura Max Feffer, explicou o projeto na palestra inaugural. Construído pelo Instituto Jatobás no município de Pardinho, interior de São Paulo, o Centro de Cultura Max Feffer, adotou uma série de recursos. “Foram criadas vagas para bicicletas e desprezados estacionamento para carros, de forma a desestimular o uso de transporte individual”, explicou David Douek. Os resíduos gerados na fase de construção foram reaproveitados na própria obra ou doados para reutilização em outras obras, reduzindo o descarte em aterros sanitários. Houve a utilização de materiais de demolição, como madeira para os caixilhos, corrimão e guarda-copos, além de produtos reciclados, como barras de ferro CA 50, que apresentam 80% de aço reciclado. “Dos materiais empregados na obra, 31,6% foram extraídos, fabricados e armazenados próximos ao local da obra, reduzindo custos com transporte e emissão de CO2. Neste empreendimento, cerca de 5% do valor dos materiais empregados no prédio são compostos de material renovável. Selantes, vernizes e tintas com baixo índice de COV (Compostos Orgânicos Voláteis) foram utilizados”, esclareceu. Projetado pela arquiteta Leiko Motomura, o prédio está situado em terreno cercado por área verde, resultando em boas condições de conforto térmico. Além disso, o efeito ilha de calor é reduzido devido, também, ao uso de tinta branca, com alto índice de refletância solar. A iluminação natural é fartamente utilizada no projeto arquitetônico. E, mesmo quando é necessário o uso da iluminação artificial, foram cuidados como a sua setorização e o uso de sensores de presença.
‘Case’ 2: Pedra Branca Pedra Branca, o bairro-cidade que vem sendo erguido em Palhoça, região da Grande Florianópolis (SC) acaba de ser eleito pelo Programa de Desenvolvimento do Clima Positivo da Fundação Clinton como um dos 16 mais sustentáveis projetos urbanísticos do mundo. Valério Gomes Neto, presidente da Pedra Branca Empreendimentos, explicou que o bairro com cerca de 1,7 milhões de m2 deverá abrigar uma população de 30 mil pessoas dentro de 15 anos. A coordenação do empreendimento é da DPZ – Duany Plater-Zyberk Latin América, escritório norte-americano formado por arquitetos identificados com o movimento chamado Novo Urbanismo, focado no ser humano e a qualidade de vida. A equipe é multidisciplinar e conta com a participação de vários escritórios de arquitetura, como o de Jaime Lerner que projetou o Centro Cultural e o Anfiteatro; da urbanista Silvia Lenzi; e do paisagista Benedito Abbud. A âncora do empreendimento, a universidade Unisul, ganhou o terreno de 150 mil m2 onde construiu seu campus. O conceito urbanístico adotado no Pedra Branca prioriza a caminhabilidade integrada com edificações sustentáveis, desenho urbano que propõe uma centralidade apoiada por uma infra-estrutura de alta performance. “Estamos falando do modelo das cidades antigas, onde o morador identifica o padeiro, reconhece o dono da farmácia, senta num bar para conversar, estabelecendo o espírito do lugar”, disse Valério Gomes Neto, destacando a praça como o ponto de convergência das vias e de onde sai um grande eixo com traçado diagonal às quadras, todas posicionadas de forma a se voltarem para alguns elementos fortes da paisagem. “Caminhando por dez minutos será possível ter acesso a todos os lugares da cidade”, destacou. Além da variedade de tipologias, a maior parte dos edifícios será de alvenaria de tijolos, com lojas e restaurantes no térreo e apartamentos e escritórios nos andares superiores. O empreendimento segue os padrões da certificação LEED de impacto ambiental.
Habitação Saudável A professora doutora Simone Cynamon Cohen, coordenadora da RBHS - Rede Brasileira de Habitação Saudável -, vinculada à Fiocruz - Fundação Oswaldo Cruz – falou sobre o abrangente trabalho que vem sendo realizado. “A RBHS é formada por um conjunto de instituições e indivíduos, com o apoio da Organização Pan Americana de Saúde, que se organiza com o intuito de estudar a realidade brasileira, tomar decisões e estabelecer iniciativas conjuntas em busca de promover a habitação saudável”, disse. O conceito se traduz na discussão ampla em torno da estrutura habitacional e sanitária do país, orientando a proposição de alternativas viáveis a sua condição, e enfocando, de forma sistemática, a qualidade do espaço construído - fundamentalmente a moradia - e sua influência na saúde e na vida. “Trata-se de um espaço em constante formação, aberto ao estudo, pesquisa e debate em prol da construção de um ambiente salubre, sustentável e de qualidade, que valorize ações e políticas relacionadas às estratégias de promoção da saúde (Carta de Ottawa – 8ª Conferência da OMS), abordando fundamentalmente o conceito de saúde preventiva”, destacou Cohen. Segundo ela, a RBHS procura, ainda, promover o intercâmbio de experiências e tecnologias, assim como trabalhar em conjunto na busca de ações que se concentrem em todo o país – ou em parte dele - para promover espacialidades saudáveis e sustentáveis, tanto na sua estrutura física como na sua estrutura sociológica.
Política do Clima “Sem a integração das políticas setoriais do planejamento urbano, de construção de edifícios verdes, de gerenciamentos de resíduos e da aplicação de instrumentos econômicos, não é possível mitigar os efeitos da emissão dos gases de efeito estufa”. A afirmação foi feita pelo sociólogo Volf Steinbaum, assessor técnico da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente ao abordar a Política do Clima no Município de São Paulo (PMMC), que entrou em vigor no dia 05 de junho passado. Responsável pela condução do Programa de Mudanças Climáticas, ele identificou nas áreas de transporte, energia, uso do solo e tecnologia da construção os principais desafios para que a PMMC atinja sua meta de redução em 30% a emissão de gases de efeito estufa até 2012. O desenvolvimento de um novo modelo de transporte ganha prioridade, segundo ele. “Haverá o aumento da frota de trólebus e de outros veículos de passageiros com combustíveis alternativos, além da rede metroviária e ferroviária”, disse. Outras ações envolvem a ampliação das ciclovias e as campanhas educativas para promover a carona solidária, além do incentivo ao hábito de caminhar. Na área da construção, as novas construções deverão obedecer a critérios de eficiência energética, sustentabilidade ambiental e eficiência de materiais. No caso das construções existentes, quando submetidas a reforma e/ou ampliação, deverão também obedecer a esses critérios. Obras e serviços de engenharia contratados pelo município deverão comprovar, obrigatoriamente, o uso de produtos e subprodutos de madeira de origem exótica ou, quando madeira nativa, tenha origem legal. E quanto aos resíduos, Steinbaum destacou que o desafio será a implementação pela administração pública da coleta seletiva, inclusive com a criação de ecopontos e central de triagem em cada distrito da cidade.
Código Ambiental O vereador Chico Macena apresentou, em detalhes, o Projeto de Lei que cria o Código Ambiental do município de São Paulo, em tramitação na Câmara Municipal. “O objetivo é prover a cidade de uma legislação capaz de criar mecanismos de controle para conservação, defesa e melhoria do meio ambiente. O desafio da legislação é estabelecer uma autoridade ambiental local e construir bases legais para a busca do meio urbano ecologicamente equilibrado, referendando parâmetros para o desenvolvimento de uma cidade sustentável com controle social”, disse ele. O Projeto foi aprovado em primeira discussão pelos vereadores de São Paulo e a previsão é que ele seja votado em segunda até o final deste ano. O mandato do vereador Chico Macena, autor do projeto de lei, receberá contribuições para implementar a lei até o dia 30 de outubro. No primeiro semestre de 2009, foram realizados, por iniciativa da Ong Espaço Mamberti de Cultura e patrocínio da Petrobras, três seminários regionais e um internacional para discutir o projeto. As contribuições destes eventos já foram adaptadas ao PL. Este projeto está de acordo com o artigo 30 da Constituição, que diz que todo município deve ter um Código Ambiental. “O objetivo das discussões que estão acontecendo em cima do projeto é construir uma lei ambiental que seja clara e compactue com a população a necessidade de cumprimento de seus artigos”, explicou Macena.
Por anab |