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Notícias


28/3/2007
ANAB Brasil realiza a primeira edição do SustentArq

Realizado no dia 26 de março, seminário apresenta as ultimas novidades no setor e discute a construção sustentavel no pais: os principais desafios, estudos de casos, cenários, com os mais importantes profissionais. Confira o release!!

A Associação Nacional de Arquitetura Bioecológica promoveu no ultimo dia 26, o 1° Seminário de Capacitação em Arquitetura e Sustentabilidade – o SUSTENTARQ, realizado no Hotel Unique, em São Paulo.

Esta primeira edição do seminário contou com apoio da ABD, CREA SP, revista Projeto&Design, Instituto de Engenharia, CEBDS, entre outros e patrocínio da empresa Sustentax – Empreendimentos Sustentáveis.

A abertura do seminário contou com a brilhante Simone Ramounoulou, responsável pelo The Natural Step no Brasil, uma organização com representação em vários paises do mundo, que trabalha para melhorar o desempenho econômico sustentável por meio de uma maior dedicação a sustentabilidade social e ecológica por parte das empresas.

Simone define a sustentabilidade em termos muito simples: o que é bom para as pessoas, é bom para os negócios, é bom para o planeta. Segundo ela, a sustentabilidade depende de quatro condições sistêmicas básicas: não aumentar as substâncias extraídas da crosta terrestre, diminuir a produção de resíduos, utilizar de modo eficiente os recursos naturais e atender as necessidades humanas da sociedade como um todo.

Mariana Perricelli, representante do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável) apresentou as perspectivas para a construção civil e a sustentabilidade como estratégia de negócios.

Inicialmente, Mariana apresentou as conclusões da Avaliação Ecossistêmica do Milênio, a maior avaliação já conduzida sobre a saúde dos ecossistemas do planeta: as mudanças sem precedentes nos ecossistemas, nos ciclos biogeoquímicos e irreversíveis para a diversidade das espécies. Segunda Mariana, é necessária uma mudança urgente de paradigma, de comportamento e de processos produtivos.

Mas sem ser apenas pessimista, ela aponta também várias soluções relacionadas a sustentabilidade no setor da construção, tais como ecoeficiência e eficiência energética e apresenta restrições e oportunidades do desenvolvimento sustentável.

“A sustentabilidade é um bom negócio”, afirma. “É capaz de reduzir riscos, aumenta a competitividade e eficiência reduzindo custos, influencia inovações de produtos e serviços, melhora a imagem, atrai e motiva talentos, proporciona progresso social e preservação ambiental e acompanha as mudanças mundiais atuais”.

O projeto mais recente do CEBDS em conjunto com o WBCSD (World Business Council for Sustainable Development)  é o de edifícios com emissão zero de carbono, que visa desenvolver diretrizes que mostrem como a construção civil pode ser auto-suficiente em energia e emissão zero de carbono, e ao mesmo tempo ser viável  - durante a construção e operação. Participam do projeto China, Índia, Brasil, EUA e EU. Outra novidade que será noticiada em breve é a criação da Câmara Técnica de Construção Sustentável.

Outro tema importante e fundamental, o de Compras Publicas Sustentáveis, foi abordado por Raquel Biderman, do Centro de Estudos da Sustentabilidade do EAESP.

No Brasil, as compras governamentais movimentam recursos estimados em 10% do PIB, e mobilizam importantes setores da economia. “A idéia da Licitação Sustentável é orientar políticas públicas para o estabelecimento de critérios como sustentabilidade, desenvolvimento de comunidades locais e criação de novos mercados, contribuindo para reduzir os impactos negativos dos processos de produção e das praticas de consumo e influenciando de maneira positiva as tendências de mercado”, afirma Raquel. Ao optarem por produtos e serviços que ofereçam maiores benefícios socioambientais, os governos estimulam os fornecedores, gerando uma economia de escala que pode levar a redução de preços desses produtos, incentivando o mercado de negócios sustentáveis.

Dois casos inéditos foram apresentados no seminário: a nova agência do Banco Real, a primeira agência sustentável do país na Granja Viana, em São Paulo, e a nova sede de Vitória da Petrobrás.

O engenheiro Marcos Casado, do Banco Real, relatou a experiência da obra, suas dificuldades e aprendizados. O desafio da banco era construir uma agência sustentável sem alterar o padrão existente das agências, resultado que foi alcançado com sucesso apesar das dificuldades encontradas.

Segundo Marcos, os principais problemas encontrados foram a mudança de cultura, a interpretação de normas e o fato dos fabricantes de materiais desconhecerem as normas. Outro ponto problemático foi a utilização de novos materiais e tecnologias sustentáveis que apresentaram baixo desempenho na aplicação e baixa durabilidade, ocasionando retrabalho e perda de materiais, gerando maiores custos. Marcos afirma que o mercado ainda não esta pronto para atender a demanda por produtos ecológicos e sustentáveis, e essa é uma grande dificuldade que o banco enfrenta principalmente em outras regiões do país, onde praticamente não existem alternativas de produtos sustentáveis.

Porém, apesar das dificuldades, os benefícios foram muitos: a nova agência consome 43% menos energia comparada às outras agências padrão, além de proporcionar menor custo operacional, melhor qualidade do ambiente interno, maior conforto e saúde dos usuários aumentando a produtividade, a qualidade de vida e gerando maiores níveis de satisfação, além de menores seguros de vida.

Pensando em todos os problemas encontrados com relação aos materiais, a Sustentax lançou na FEICON (Feira Internacional da Industria da Construção) um selo para o estabelecimento de critérios socioambientais de produtos e materiais para a construção civil.

Quanto a esta questão, Raquel Biderman afirma que estabelecer critérios para a criação de selos verdes ainda é um desafio e as soluções requerem esforços multidisciplinares. “Existem selos e selos no mercado e o consumidor deve ficar atento a quais são os critérios que orientam a definição e a concessão da rotulagem ambiental”.  Raquel lembra também que atualmente não se pode estabelecer critérios ambientais para produtos com altos níveis de exigência, pois os produtores e fabricantes ainda não conseguem atender a esses critérios. Segundo a pesquisadora, não dá para se exigir hoje, por exemplo, 100% de sustentabilidade em um produto. Porém, é possível identificar produtos mais sustentáveis que outros, como por exemplo, as lâmpadas fluorescentes mais eficientes, porém que ainda contêm mercúrio, pois não existe até o momento, uma solução tecnológica para eliminá-lo.

“Porém tudo isso é uma questão de tempo, de transição e investimento”, afirma Raquel.

 

Já, o arquiteto Alexandre Petroni, da Petrobrás, apresentou as conclusões do 4° Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC, onde se concluiu que o planeta está esquentando de maneira irreversível por culpa do nosso modelo civilizatório, e que e possível salvar a humanidade desde que mudemos o nosso comportamento.

Juntamente com o arquiteto vencedor do concurso público nacional, organizado pela Petrobrás e IAB do Espírito Santo, Sidonio Porto, Petroni apresentou o projeto focado nas necessidades da empresa e que tinha como critérios a eficiência energética, a funcionalidade e as recomendações do sistema de avaliação e certificação ambiental LEED.

Segundo Petroni, “a arquitetura sustentável, mais que um conceito, deverá em breve ser uma formalidade, contida em leis, normas e regulamentos e fazer parte dos princípios na formação dos profissionais responsáveis pela concepção projetual”.

Outra brilhante apresentação foi a de Saulo Rozendo, do CTE (Centro de Tecnologias em Edificações), que apresentou os principais desafios da sustentabilidade no setor da construção atualmente.

Como o tema é muito recente no país, não há uma base de dados, não há pesquisas suficientes, não há benchmarkings. “Como transpor esses desafios?”, questiona Saulo. “Através do diálogo, da troca de informações e de experiências, através de pesquisas e inovações. A dúvida de um pode ser a dúvida de outro, e um diálogo aberto e transparente sobre o assunto traz benefícios para todos”.

Saulo ressaltou alguns conceitos essenciais que independem do modelo e padrão em que se está trabalhando, tais como: qualidade urbana, relacionamento com o entorno, cultura, educação e aprendizagem, e apresentou algumas soluções inovadoras de empreendimentos, tais como o Eldorado Business Tower, da Gafisa, onde para cada produto e componente da obra é exigido que o fabricante apresente uma declaração ambiental, informando os impactos ambientais desde a extração da matéria prima até o local da obra. Pelo menos três aspectos são considerados nesta declaração: a distância até a obra (transporte), a emissão de VOC e a quantidade de conteúdo reciclado incorporado no produto.

Como se diferencia um edifício verde de um edifício sustentável?

Segundo Saulo, “O edifício sustentável admite padrões de desempenho ambiental, social e econômico e consegue equilibrar bem essas três variáveis. São considerados aspectos econômicos, como renda e retorno para o investidor, aspectos ambientais como consumo de recursos e também aspectos sociais como saúde, segurança, educação, trabalho infantil,etc”.

 “O sistema de certificação LEED traz a idéia que as pessoas possam competir em torno do desempenho ambiental proporcionando cada vez mais benefícios para o meio ambiente”. Uma crítica ao sistema é que ele não aborda todos os aspectos ambientais existentes. Ele segmenta o assunto em determinados pontos, porém segundo Saulo, isso acontece em todos os modelos.

A professora Vanessa Gomes, da UNICAMP, afirma que o sistema é uma maneira de se definir edifícios de alto desempenho ambiental e apresenta várias vantagens, tais como: ajuda a definir metas quantificáveis a serem alcançadas, incentiva a abordagem em equipe, o projeto integrado e a documentação do processo, promove melhorias ao longo do tempo, melhora a saúde, segurança e bem estar dos usuários,  é de adoção voluntária e serve como ferramenta de processo de projeto e pode ser facilmente utilizado como instrumento de política governamental.

Segundo Vanessa, o US Green Building Council (USGBC) está transformando a indústria da construção nos EUA . O interessante é que estas mudanças são ao mesmo tempo, respostas as demandas do mercado e dirigidas pelo mercado, e não por normas.

Quanto à questão de custos dos edifícios verdes, Vanessa afirma que inicialmente os empreendimentos podem ter um aumento de até 15%, mas, trabalhos recentes demonstraram que a variação de custo nesses empreendimentos atualmente nos EUA é tipicamente menor que 3%, com alguns projetos apresentando reduções.

Se é possível importar um sistema de avaliação? Vanessa alerta que para um sistema ser eficiente ele deve possuir consistência técnica, viabilidade prática, absorção rápida e adequação ao contexto, sendo plenamente adaptado às praticas e condições locais.

Encerrando a questão LEED, a arquiteta Milene Abla, do escritório Aflalo&Gasperini, relatou a experiência da certificação no projeto do Edifício Ventura Towers, no Rio de Janeiro, onde se optou por buscar a certificação quando o projeto já estava em um nível avançado e foram necessárias adequações para se atender aos requisitos estabelecidos pelo sistema.

Segundo Milene, o projeto de arquitetura foi responsável por atender apenas 5% dos pré-requisitos, enquanto que os outros itens de maior peso foram o ar condicionado com 33%, incorporação com 43%, a construção com 14%.  A arquitetura foi responsável basicamente pela definição dos espaços e especificações.

Desse modo, Milene questiona até que ponto a certificação é realmente um valor agregado em termos de arquitetura. “Sem dúvida, existe valor em termos de mercado, mas em termos de arquitetura é questionável”. Milene questiona ainda o “quanto o sistema é realmente um processo em que se pode contar e confiar, e o quanto os arquitetos devem entrar nesse processo muito antes, com uma série de outras questões que podem chegar a soluções muito melhores”.

Finalizando Milene faz um alerta: “O sistema LEED é uma ferramenta, mas não é tudo, não é inquestionável, não tem valor único, e existem muitas questões a serem trazidas além dele!!”.

O foco do sistema é a eficiência e desempenho do empreendimento como um todo. “O LEED não deve ser um objetivo, deve ser uma conseqüência e um processo pensado desde o início do planejamento do empreendimento, de uma forma natural!”.

Dando continuidade ao tema de certificações, Roberto Lamberts, do Laboratório de Eficiência Energética da UFSC (universidade Federal de Santa Catarina) apresentou a regulamentação de eficiência energética em edifícios comerciais.

O projeto foi desenvolvido pelo Labeee e Ministério de Minas e Energia, através do Procel, da Eletrobrás.

Segundo Lamberts, o consumo de energia têm tido um aumento crescente em todos os países, não só nos países em desenvolvimento, mas nos desenvolvidos também, tornando-se uma das principais questões a serem enfrentadas pela economia global.

“Não há dúvidas que para crescer é preciso energia. A questão é: como consumir energia de uma forma mais eficiente?”, afirma Lamberts.

O programa de etiquetagem de eficiência energética em edifícios comerciais especifica requisitos técnicos, bem como métodos, para a classificação de edifícios comerciais e públicos quanto à eficiência energética, abordando os sistemas de iluminação, ar-condicionado e a envoltória do edifício.

O programa inicialmente terá caráter voluntário, com previsão para implantação ainda este ano, e passara a ter caráter obrigatório no prazo de cinco anos a partir da data da implantação.

Os requisitos mínimos para o edifício ser elegível para a certificação são: possuir circuito elétrico com possibilidade de medição centralizada por uso final e ser monitorado durante toda a sua vida útil.

Para se atingir uma classificação máxima é necessário: utilizar aquecimento de água por meio de calor (solar ou por bomba de calor); se possuir mais de um elevador, deve ter controle inteligente de tráfego e utilizar bomba de água etiquetada. Com relação ao sistema de iluminação, os edifícios de nível A devem ter desligamento automático do sistema de iluminação, divisão dos circuitos e contribuição de luz natural.

A envoltória será analisada por duas equações conforme as zonas bioclimáticas: para edifícios com área de projeção menores ou maiores que 500m2.

Em edifícios com áreas não condicionadas ou condicionadas naturalmente, será obrigatório comprovar por simulação que o ambiente proporciona temperatura dentro de uma zona de conforto durante 95% das horas ocupadas. “Isso deve desenvolver o mercado de simulação brasileiro”, diz Lamberts.

E por fim, Denise Duarte apresentou inovações tecnológicas para edifícios mais sustentáveis, desenvolvidas pelo LABAUT (Laboratório de Conforto Ambiental e Eficiência Energética), da FAUUSP.

Denise apresentou as importantes pesquisas realizadas tanto em escala urbana, bem como na escala do edifício.

Na escala urbana, as pesquisas abordam temas como ventilação e acústica urbana, estudo do impacto da vegetação na qualidade ambiental urbana, índices de conforto em ambientes externos e estabelecimento de critérios ambientais para a ocupação de vazios urbanos. Nessa área, uma pesquisa totalmente inovadora é a de espaços urbanos sustentáveis, pela sua abordagem de pesquisa pelo projeto, inovadora na academia.

Na escala do edifício estão sendo realizadas pesquisas referentes a sistemas inovadores para fachadas, desempenho de brises, certificação ambiental de edifícios e estabelecimento de indicadores de desempenho, técnicas de resfriamento de coberturas e documentação histórica, entre outras.

Denise deixa boas notícias: as inovações que o Departamento de Tecnologia vem realizando nos últimos anos referentes à questão do ensino. Há quatro anos foi feita uma reforma curricular onde as questões ambientais foram incluídas em todas as disciplinas do departamento e o laboratório também oferece apoio para todos os alunos na elaboração dos trabalhos finais de graduação.

Enfim, podemos dizer que o seminário trouxe boas notícias e muita esperança!

E como afirma Raquel Biderman: “O Brasil é um país pródigo em invenções e soluções criativas, e a engenhosidade do brasileiro tem se espalhado por vários setores. O setor da construção é um setor que apresenta muitas oportunidades e nós confiamos na engenhosidade e criatividade dos arquitetos e engenheiros para transpor os desafios apresentados!”.

Por ANAB Brasil

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