por Arquiteto Marcos Cardone
Qual a relação direta entre desenvolvimento sustentável e prosperidade (qualidade de vida)?
A concepção de desenvolvimento sustentável tem suas raízes na Conferência das Nações Unidas sobre meio ambiente urbano, realizada em Estocolmo, em Junho de 1972. Existem diferentes interpretações para este conceito que, sem dúvida, é sinônimo de equilíbrio entre preservação do meio ambiente e desenvolvimento econômico e social. Portanto uma sociedade sustentável, num olhar mais amplo e sistêmico, significa rever padrões de produção e consumo para que as necessidades presentes não comprometam as gerações futuras.
Diante dos grandes problemas gerados por esta conjuntura atual, faz urgente uma reavaliação da relação do indivíduo com o meio que o cerca. Vivemos uma crise civilizatória e não simplesmente uma crise ambiental.
Á medida que aumenta a prosperidade, desejamos mais coisas e consumimos mais.
Com o consumo, cresce o uso de recursos, a geração de resíduos e a produção de CO2. Enquanto isso ocorrem tempestades, grandes inundações, secas prolongadas e alterações climáticas sem precedentes.
Estamos comprometendo o equilíbrio do oxigênio e do dióxido de carbono no globo terrestre pela derrubada de florestas e queimadas sem planejamento e sem limites.
Através da poluição dos efluentes líquidos que despejamos permanentemente nos oceano, rios e lagos, estamos reduzindo as espécies vivas e perturbando os equilíbrios ecossistêmicos e interferindo na regulagem da peculiar atmosfera do planeta.
Segundo um grupo de especialistas em meio ambiente, a sociedade poderia multiplicar por quatro sua produtividade sem consumir mais recursos. Esta idéia se baseia na crença de que através de tecnologias mais eficientes, um maior uso de reciclagem e uma melhor gestão e desenho, a sociedade poderia crescer sem causar mais danos ecológicos.
Sob essa teoria, subsidia-se a noção de capital natural, uma espécie de sistema de contabilidade mundial de todos os recursos ecológicos, os quais passarão a influenciar as ações do mercado financeiro mundial.
Será possível comercializar com a ecologia de modo que quanto mais escassos seus recursos, maior seu valor e assim assegurar sua sobrevivência, como por exemplo, a compra de cotas de carbono.
Esta atrativa idéia poderá contribuir muito para os que projetam, incorporam e constroem edifícios.
Na atualidade, metade da população vive em Zonas urbanas. Desses, a quarta parte aproximadamente vive em cidades com mais de um milhão de habitantes e a metade em cidades de mais de oito milhões.
É evidente que a pressão mundial pelo meio ambiente se deixará sentir primeiro nas grandes cidades, como é o caso de São Paulo.
Só mediante o uso de tecnologias ambientalmente eficientes, maior respeito aos recursos naturais e a substituição de recursos não renováveis pelas práticas renováveis e auto-suficientes poderá fazer frente a essa pressão.
A cidade desenvolve papel chave no esforço por estabelecer uma relação mais simbiótica com o território e o edifício é parte integrante da cidade. Seu desenho, inspirado em análises do ciclo de vida, também pode contribuir nesse esforço gerando sua própria energia, captando e reciclando sua própria água, utilizando materiais a partir de resíduos ou mantendo o equilíbrio entre o CO2 utilizado em sua construção e em seu uso, além do CO2 transformado novamente em oxigênio através das árvores plantadas no seu entorno ou em outros lugares.
Os edifícios são grandes consumidores de matéria prima, portanto o capital ambiental neles investidos é enorme. Cinqüenta por cento de todos os recursos mundiais se destinam à construção; quarenta e cinco por cento da energia gerada se utiliza para alimentá-los e cinco por cento para construí-los; quarenta por cento da água utilizada no mundo se destina a abastecer as instalações sanitárias e demais usos dos edifícios.
Se a Sociedade aceita a idéia de se desenhar edifícios sustentáveis, o desenvolvimento sustentável das cidades se produzirá como uma conseqüência lógica. A complexidade do desenvolvimento de cidades sustentáveis é um obstáculo que dificulta a ação. Já nos edifícios a facilidade com que é possível avaliar os efeitos sobre os recursos deve aproveitar-se para fazer com que a nova arquitetura ilumine esse processo de mudança.
A sustentabilidade tem se erguido, firme e irreversível, como prioridade política enquanto que, paralelamente se tem consolidado uma crescente conscientização que se nutre de um novo estado de ânimo da opinião pública e do qual não devemos abrir mão em nossa estratégia de negócios.
Os métodos e as tecnologias aplicadas ao desenho sustentável já se encontram em um estágio avançado de desenvolvimento. O que ainda falta é que os profissionais, os investidores e as empresas dêem prioridade às questões ambientais e que a sustentabilidade inspire a atuação da indústria da construção em todos os seus estágios.