ARQUITETURA SUSTENTÁVEL
A partir dos anos 70, em conseqüência de grandes desastres ambientais e com a primeira crise energética, a questão ambiental tornou-se relevante no cenário internacional. As principais questões eram as conseqüências de uma crise energética mundial, o impacto ambiental gerado pelo consumo de energia de origem fóssil, as previsões a respeito do crescimento da população mundial e o inevitável crescimento das cidades e suas demandas por recursos. No final da década de 80 e início da década de 90, a preocupação com o desenvolvimento sustentável (1) passou a fazer parte da agenda da arquitetura e urbanismo internacional de forma definitiva, trazendo novos paradigmas.
No decorrer da história da humanidade até a revolução industrial e o desenvolvimento de novas tecnologias, a arquitetura sempre esteve ligada ao clima e as condições locais (ambientais, sociais e culturais) em que estava inserida. A partir da revolução industrial e principalmente depois da Segunda Guerra Mundial, o desenvolvimento da tecnologia permitiu ao homem uma dissociação da natureza, e a arquitetura se dissociou do ambiente em que estava inserida, uma vez que a tecnologia “inteligente” dos sistemas prediais permitia o controle total das condições ambientais de qualquer edifício, sem considerar o seu alto custo e consumo de energia.
A globalização também teve seu efeito na produção da arquitetura, com a repecursão do chamado “estilo internacional” que passou a se instalar e se multiplicar em diversos países, com as chamadas ”caixas de vidro”, de forma totalmente dissociada das condições ambientais, sociais e culturais locais.
Em reação ao estilo internacional e suas conseqüências, segundo Marcelo Romero, foi necessário criar uma nova arquitetura: a arquitetura bioclimática, com o intuito de se obter o máximo conforto ambiental e o menor consumo de energia. A arquitetura bioclimática volta a unificar, então, dois conceitos inseparáveis: arquitetura e clima, buscando conciliar a edificação com as condições ambientais locais tais como: localização geográfica, sítio, temperatura, ventos, umidade, radiação solar, etc, utilizando ao máximo a energia solar, oferecendo melhores condições de conforto de forma natural sem o consumo de outras formas de energia.
A arquitetura modernista brasileira, principalmente entre o período de 1930 a 1960, utilizou soluções bioclimáticas, como o emprego de brises e cobogós. Lúcio Costa, por exemplo, ressaltava a importância da compreensão das condições climáticas e da geometria solar para a concepção de projetos. Luiz Figueiras – Lelé, também é um grande exemplo de arquitetura bioclimática brasileira.
A partir das preocupações com o consumo de energia na década de 70, a preocupação com a sustentabilidade ambiental da arquitetura evoluiu para outros aspectos do impacto ambiental da construção, como o impacto gerado pelos processos de industrialização dos materiais e a busca por sistemas prediais mais eficientes no consumo de recursos, como energia e água, durante a operação do edifício.
No mundo todo, os novos projetos de arquitetura passaram a ser pensados e concebidos para responder aos desafios ambientais e tecnológicos da sustentabilidade. Segundo Joana Gonçalves, a arquitetura sustentável deve fazer a síntese entre projeto, ambiente e tecnologia, dentro de um determinado contexto ambiental, cultural e sócio-econômico, apropriando-se de uma visão de médio e longo prazos.
A arquitetura sustentável não pressupõe um estilo arquitetônico, podendo ser encontrada tanto na arquitetura vernacular das mais variadas culturas como em muitos exemplos do modernismo, e mais recentemente, da arquitetura intitulada high-tech ou eco-tech.
No entanto, é preciso estar atento a projetos e empreendimentos que se dizem sustentáveis. Nas últimas décadas a arquitetura tornou-se uma forma de produção em massa e de criação de produtos que atendam aos interesses da indústria imobiliária. A utilização de tecnologias sustentáveis não garante a sustentabilidade de uma edificação, e sua utilização deve fazer parte da concepção inicial do projeto, e não ser inserida como “acessório”.
A busca da sustentabilidade deve ser uma premissa inicial do projeto, que deve adotar soluções de arquitetura bioclimática para garantir o conforto dos usuários com menor consumo de energia, além de considerar todas as relações com o sítio em que está inserida, minimizando os possíveis impactos ambientais e sociais durante todo o ciclo de vida do empreendimento, ou seja, desde a sua idealização e concepção, até a construção, operação, readequação ou desmonte final.
Enfim, a arquiteta Roberta Kronka faz uma conceituação atual e abrangente da arquitetura sustentável, onde a arquitetura é uma forma de promover a busca pela igualdade social, valorização dos aspectos culturais, maior eficiência econômica e menor impacto ambiental nas soluções adotadas nas fases de projeto, construção, utilização, reutilização e reciclagem da edificação, visando a distribuição equitativa da matéria-prima e garantindo a competitividade do homem e das cidades.
(1) O conceito do desenvolvimento sustentável foi definido em 1987, no relatório Brundtland, como aquele que atende às necessidades do presente, sem comprometer o atendimento às necessidades das gerações futuras.
Conheça a “Declaração de Interdependência para um Futuro Sustentável”[S2] , da União Internacional dos Arquitetos.
Conheça os Princípios de Hannover: Design para a Sustentabilidade[S3] , de William McDonough.




